terça-feira, 8 de maio de 2012

Syriza: o espelho grego do BE de Louçã.

O Syriza é o correspondente ao BE na Grécia. A interpretação que faz dos resultados nas eleições na Grécia é exactamente a mesma que Francisco Louçã subscreveria.

Isto é, anunciam que são contra a tróica germano-imperialista, mas não afirmando taxativamente que são pelo repúdio da dívida – como, interpretando adequadamente o sentimento dos trabalhadores e do povo grego faz o KKE (Partido Comunista Grego) – nem dizem de forma clara que são a favor da nacionalização da banca, mas apenas adeptos de uma intervenção estatal, ao mesmo tempo que fogem que nem o diabo da cruz da nacionalização da banca e dos sectores estratégicos da economia grega e, pasme-se, são contrários à saída do euro e da União Europeia…custe o que custar!

Ou seja, o Syriza diz-se contra a tróica e as suas medidas de austeridade, mas são a favor da manutenção do euro que é o instrumento por excelência de que se vale o imperialismo germânico para dominar a Europa. Escamoteando que a Alemanha, depois de ter induzido a desindustrialização e liquidação da agricultura e pescas dos países europeus, sobretudo aqueles que são considerados os elos mais fracos da cadeia capitalista, e travestido o marco de euro, prosseguiu a sua sagaz estratégia impedindo as economias mais frágeis ou mais fragilizadas com aquela estratégia de ter uma política cambial ajustável aos interesses da sua economia e não, como agora acontece, ajustável aos superavits industriais alemães aos quais, em contraciclo com as restantes economias, lhes interessa um marco, perdão, um euro, forte. 

Mesmo a propósito da dívida, o Syriza refugia-se num sofisma: não diz expressamente que a repudia, como faz o KKE, mas que é favorável a uma auditoria internacional à mesma. Não diz que não paga a dívida, antes sugere que o esforço para o fazer tem de ser negociado, tendo em conta os interesses do povo grego. Ou seja, escamoteia a natureza da dívida e da crise capitalistas, escamoteia que as dívidas soberanas são um instrumento de chantagem que, para além de constituírem um grande negócio, sobretudo para os grandes grupos financeiros e bancários alemães (basta verificar a composição do capital social do BCE, que, ao contrário do que muitos julgam, não é um banco europeu, mas sim privado), está a ser um poderoso instrumento de subjugação dos povos e países europeus por parte do imperialismo germânico, de forma a fazê-los alinhar no seu modelo de divisão internacional do trabalho, neste caso europeu, que os torne meros fornecedores de mão-de-obra barata para fazer face à concorrência da China e de outros países emergentes, como a Índia e o próprio Brasil.

De resto, tudo igualzinho ao BE, que se posiciona como uma alternativa de gestão para o sistema capitalista, não faltando, sequer, a menção às eurobonds e às políticas de crescimento e emprego tão caras aos socialistas europeus, nomeadamente o PSF de Hollande. Repúdio da dívida…nem tocar!

1 comentário:

  1. Certeiro...as negociações devem avançar para um governo que une a esquerda, mas com principios bem definidos, nada escondendo debaixo da mesa, e uma coisa deve ficar bem clara: este sistema não deve ser salvo, mas sim combatido.

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