sábado, 29 de agosto de 2015

Erradicação do Rato Preto e do Coelho e remoção do chorão na Berlenga

A pretexto de uma exigência científica esconde-se negócio multinacional!


No passado dia 10 de Julho do corrente, e promovido pelo Eurodeputado pelo partido MPT – Partido da Terra, José Inácio Faria, decorreu nas instalações do Centro de Estudos Jean Monet, em Lisboa, um debate sobre o Projecto Life + Berlengas, que está a ser levado a cabo pela SPEA – Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves que, apesar de convidada para estar presente e participar no dito e esclarecer os interessados da sua posição sobre a matéria, marcou pela sua ausência.

Os protagonistas deste debate eram o rato preto, o coelho e o chorão. É que o supracitado projecto da SPEA visa o extermínio dos dois primeiros e a remoção completa do terceiro.

A sala do 6º andar do referido Centro estava quase lotada, sobretudo por biólogos e outros cientistas ligados a matérias relativas à conservação da natureza e, ainda, uma médica veterinária.

A presidir à mesa, para além do já mencionado Eurodeputado, estava o Prof. Raúl Jorge Santos que, como biólogo, tem uma experiência de mais de 20 anos na Berlenga.

José Inácio Faria abriu o debate fazendo menção à participação de um representante do PCTP/MRPP e ao interesse manifestado pelo PAN – que, no entanto, não se fez representar – pela temática. Referiu, ainda, que o seu gabinete no Parlamento europeu tem dado particular atenção às questões do ambiente e que tudo fará para que este projecto não seja executado.

Afirmou não compreender os fundamentos que levaram o Parlamento Europeu a libertar um financiamento de 1,4 milhões de euros para o extermínio do rato preto e do coelho e remoção do chorão na Berlenga, tendo questionado, quer aquela entidade, quer a Comissão ENVI (que se dedica às questões do Ambiente, da Saúde Pública e da Segurança), sobre uma decisão que, segundo ele, põe em causa o equilíbrio de todo o ecossistema da Berlenga.

Todos os intervenientes que se seguiram, membros da comunidade científica portuguesa ligada a estas temáticas do ambiente, aportaram testemunhos que, todos eles, denunciavam a insustentabilidade dos argumentos que estão na base do projecto que o Parlamento Europeu, sem que tenha ouvido as suas opiniões ou solicitado os seus pareceres, insiste em implementar.

A bióloga Paula Dias, que neste momento se encontra a trabalhar em Inglaterra, enviou uma mensagem para ser lida durante esta sessão, e na qual referia a sua experiência em várias intervenções levadas a cabo em vários países e regiões do mundo – incluindo a China -, que a levam a crer que o estudo que deu lugar à decisão do governo utilizar os fundos libertados pelo Parlamento Europeu para este projecto não tem qualquer sustentabilidade científica, constituindo, bem pelo contrário, um acto criminoso.

Tal opinião foi corroborada pelo Prof. Luís Vicente, um reconhecido cientista na área da biologia, que tem uma experiência de mais de 40 anos de Berlenga, muitos dos quais como Director da Reserva. Um cientista que foi designado pelas Nações Unidas para integrar um projecto que faz uma avaliação, de 6 em 6 anos, dos ecossistemas.

Referindo que os ecossistemas insulares são muito mais simples que os continentais mas, também, muito mais frágeis – e, simultâneamente, mais dinâmicos -, devendo ser tratados com “pinças e luvas brancas”, este cientista verberou qualquer pretensão de se “brincar aos deuses”, chegando a afirmar que, a fazê-lo, pelo menos que se faça com uma grande base científica (“nós somos profissionais da dúvida, não da certeza”, disse).

Luís Vicente defende que o rato preto não pode ser considerado uma praga para a Berlenga, nem o coelho. Referiu, inclusive, que quando a população de coelhos cresce um pouco mais na Berlenga, a mixomatose regula esse crescimento. Foi interessante saber que a Berlenga não pode ser considerada ilha ou arquipélago, pois “são um bocadinho do Canadá que ficou para trás” durante o período de “deriva” dos continentes. No seu entender, a Berlenga nem sequer faz parte da plataforma continental europeia. Quanto à introdução do rato preto na Berlenga, ela pode ter ocorrido quando aquele território ainda estava ligado à plataforma continental, ou aquando da colonização fenícia ou romana.

Este biólogo, reconhecido internacionalmente, que fez uma das intervenções de fundo mais completas durante este debate referiu, ainda, a indignação e o choque do Prof. Jacques Blondel – de grande relevância científica, reconhecida a nível internacional e europeu – com esta perspectiva de extermínio.

Luís Vicente considerou que as espécies animais, mesmo que não tenham valor ecológico, têm um valor patrimonial (genético) – tal como o Mosteiro dos Jerónimos ou uma ópera de Verdi – e referiu que nas ilhas, as relações de parentesco entre espécies (consanguinidade) é muito grande, sendo de esperar, por esse facto, um aumento dos comportamentos altruístas e de solidariedade, havendo na Berlenga, relativamente à população do rato preto, evidências desse comportamento e de uma sensibilidade – mormente da dor própria e da dor de terceiros - e memória que tornam a ideia do seu extermínio ainda mais criminosa e cruel.

Outros oradores, biólogos e não só, referiram que não foram estudados os impactos ambientais que o método de extermínio químico escolhido pode acarretar para o ecossistema da Berlenga (incluindo os fundos do mar, a fauna e a flora marítima).

O Prof. Raúl Jorge Santos- no que foi secundado pelo eurodeputado do MPT- comprometeu-se a divulgar toda a documentação respeitante a esta temática que venha a ser produzida e sugeriu a consulta da página do Facebook “O Rato Preto da Berlenga é Inocente” - https://www.facebook.com/pages/O-rato-preto-da-Berlenga-%C3%A9-inocente/656060084494732?fref=ts.

Tentando dar resposta à questão colocada pelo eurodeputado José Inácio Faria – “Qual é o verdadeiro propósito da erradicação?” -, o Dr. António Teixeira, que trabalhou durante 35 anos no Instituto da Conservação da Natureza, tendo sido designado por este, durante vários anos, para o representar na Berlenga, fez uma vibrante denúncia quanto ao papel que uma conhecida multinacional a operar neste sector – a Bird Life International (cuja site é  http://www.birdlife.org/) – pode estar a ter, como teve em algumas ilhas da Antárctida, no extermínio de predadores das populações de aves marinhas que nessas ilhas nidificam. Argumento que não faz sentido quando a realidade da Berlenga é a de que a população de cagarras aumentou nos últimos 10 anos.

Conhecido o montante de 1,4 milhões de euros que o Parlamento Europeu destinou a este projecto, e que este tipo de decisões assenta num Caderno de Encargos onde são reveladas as entidades, cientistas ou outras personalidades para as quais se destinam as diferentes verbas parcelares, questionado sobre se tal multinacional fazia parte do mesmo, José Inácio Faria limitou-se a proferir um lacónico “ainda não recebi os detalhes do projecto, apesar de já o ter solicitado”.

O que não se compagina com a informação que logo no início do debate prestou, de que já teria dado entrada, por iniciativa do seu gabinete e no tribunal competente uma Providência Cautelar para impedir a execução do projecto de extermínio do rato preto e do coelho, bem como da remoção do chorão, na Berlenga.

Outra conhecida bióloga – a Drª Cristina Piçarra, afirmou ter lido o documento da SPEA e ter-se deparado com “tanta asneira científica”,  entre elas o risco de o rato preto “hibridar” com outras espécies. O disparate tem uma tal dimensão que riu-se e disse gostar de saber quais as espécies com as quais a SPEA considera haver esse risco de hibridação.

A médica veterinária Drª Raquel Leitão, para além de ter recordado o desastroso e criminoso processo – ocorrido há uns anos na Berlenga – de envenenamento das gaivotas, aludiu ao facto de parecer que o dinheiro, uma vez mais, anda à frente da investigação, questionando-se de como é possível que os interesses de uma multinacional se possam sobrepor à intervenção e tutela de institutos e organismos nacionais.

A reter, ainda algumas das considerações feitas pelo Dr. António Teixeira durante a sua intervenção. A população do rato preto da Berlenga está isolada, isto é, “do ponto de vista jurídico”, está “condenada a prisão perpétua”! Dentro desta “onda” de financiamento disponível, o que leva a que se passe desta sentença de “prisão perpétua” para uma “sentença de morte”, quando não existem evidências científicas sólidas de que o rato preto é predador das populações de aves marinhas?

Se é certo que a dimensão científica do debate foi muito interessante e esclarecedora, já a dimensão política foi muito fraca. Desde logo, por assentar em “meias verdades”, hesitações e incongruências quanto à estratégia política a adoptar e quanto aos alvos a atacar.

A comunidade científica deve unir-se e não deixar que um tema desta importância se deixe enredar nas habituais hesitações, manipulações e determinismos governamentais. Tem de compreender que a sua luta não é apenas em defesa da natureza e da ecologia. Faz parte integrante da luta democrática e patriótica contra a perda da nossa soberania a favor de directórios internacionais que desejam salvaguardar tudo menos os interesses do nosso povo e do nosso património, natural e não só.

domingo, 9 de agosto de 2015

A quem serve a abstenção?!

Sempre que se aproximam actos eleitorais, os defensores da abstenção aparecem a agitar as suas bandeiras e a defender que o caminho é não votar. É interessante verificar que, afinal,  são os críticos da retórica os maiores e mais militantes dos retóricos. Afirmam, alto e bom som, que não votam em consciência, porque não querem  alimentar mais um sistema corrupto e corruptor, escamoteando que esse sistema, assente em aparelhos partidários muito bem oleados e organizados, com um sistema de correias de transmissão, de favores e influências há muito implementados, e com reconhecida eficácia, se alimentam, precisamente, da abstenção!

Que bom que é ter um ética e uma moral! O que fazer quando elas promovem o contrário do que anunciam? Apesar de considerar que a solução não passa por eleições e, muito menos, por um sistema podre e caduco, como o é o regime parlamentar burguês, a sugestão mais consentânea com os interesses do povo, neste momento, é que se se utilize o sistema para o combater.

Se é certo que considero, dadas as condições actuais, que a saída mais consentânea com os interesses do povo e de quem trabalha é votar no PCTP/MRPP, reconheço que, desde que não estejam comprometidos com a PRAXIS daqueles partidos que nos últimos 40 anos, à vez ou coligados uns com os outros, impuseram ao povo português a situação que actualmente se vive, outras alternativas poderão ser consideradas.

Há que romper com a situação de total destruição do tecido produtivo, de uma crescente dependência do exterior, do regresso a níveis de miséria vivenciados há mais de 5 décadas e, muito particularmente da perda da soberania do país em matérias vitais como a política financeira, cambial e fiscal, a que os partidos do chamado bloco central – por vezes com a cumplicidade activa do CDS/PP – conduziram Portugal, amarrando o país e o povo à armadilha do euro e da dívida.

Nunca, porém, a abstenção que tanto apraz a Cavaco e à coligação fascista PSD/CDS, bastamente satisfeita com o facto de impedir, objectivamente, o registo nas embaixadas e consulados a mais de 400 mil trabalhadores que nos últimos 4 anos foram forçados a emigrar, porque foi fechando, de forma sistemática e criminosa, aqueles espaços físicos, únicos na função de materializar a relação desses trabalhadores e elementos do povo com o seu país.

A história ensina-nos que, sempre que se vislumbram períodos eleitorais, aparecem este tipo de arautos, lançados pelos partidos do poder para, objectivamente, lançar a confusão e promover a abstenção que, num sistema baseado no método de Hondt, favorece precisamente os partidos com maior número de clientela e cujas organizações são financiadas pelo próprio sistema que, depois, são encarregados de gerir.

 Depois de lençóis de retórica vazia e ôca, polvilhada, por vezes, por algumas tiradas de lucidez transviada para que os mais incautos possam pensar que os defensores da abstenção até sabem do que falam,  fica a grande questão por responder. Então qual é a alternativa? Entregar o ouro ao bandido de bandeja? Sem resistência e luta? Sem aproveitar o arremedo de democracia que o inimigo se vê obrigado, pelo menos de 4 em 4 anos, a encenar? Não aproveitar essa encenação para ir passando novas mensagens e elevar as consciências?

Perante a fatalidade de que as eleições servem para que tudo fique como mais apraz aos donos disto tudo, temos um bom exemplo: a Islândia!  A comprovar que as mudanças não ocorrem por geração espontânea, nem por acção da abstenção. Muito pelo contrário, essas transformações ocorreram porque um conjunto importante de forças - partidárias e não partidárias, mas democratas e patriotas – souberam interpretar adequadamente as necessidades e anseios do povo islandês e dar-lhe expressão. Isso faz-se com luta, organização, coerência e persistência, e não com os habituais lamentos de que somos dominados por um bando de corruptos e corruptores.


Se é certo que o povo não pode contar com os partidos retrógrados que ao longo dos últimos 41 anos, à vez ou coligados, governaram o país, não menos certo é que não deverá alimentar ilusões naquela esquerda que aceitou o princípio da concertação social, considerando ser possível conciliar os interesses do lobo e do cordeiro! Agora, meter tudo no mesmo saco para justificar a abstenção é que não! Até porque fazê-lo elimina a alternativa democrática, elimina a possibilidade política e instrumental de derrubar os promotores da corrupção e aqueles que lhe aparam o sistema.


sábado, 8 de agosto de 2015

Tempo de mudança?

Tempo de mudar o quê e a favor de quem? É o que se nos oferece perguntar face ao leit motiv da campanha eleitoral do PS e de António Costa.

A avaliar pelo abuso que a direcção de marketing da dita cometeu ao utilizar trabalhadores de uma Junta de Freguesia – a de Arroios, em Lisboa -, para aparecerem como desempregados de longa duração em cartazes de campanha, estamos conversados quanto ao que esta gente considera mudança!

Conduzida por essa iletrada da política que dá pelo nome de Margarida Martins, os trabalhadores desta freguesia foram utilizados, sabe-se agora,  sem saberem qual o objectivo para a sessão fotográfica a que foram sujeitos ou, muito menos, qual a utilização que iria ser feita  da sua imagem.

Também, o que se poderia esperar de uma personagem que, conjuntamente com outros carreiristas que abundam no PS, aplaudiu a execução do programa de agregação de freguesias de Lisboa, não em função das suas características próprias, mas da matemática eleitoral que mais convinha ao então imperador de Lisboa e ao PS!

Esta é a visão de quem não perde uma oportunidade para afirmar que o seu programa e os seus objectivos só tem em conta as pessoas para, na volta, se servirem das pessoas – ou seja, dos trabalhadores e do povo – para os obrigar a pagar dívidas privadas que, a mando do IV Reich e da chancelerina Merkel, se tornaram públicas.

Poderá parecer um caso de somenos importância, um fait divers de campanha. Mas, não é! É a praxis de um partido que perante a crise, a dívida e a resposta a dar-lhes, tem o mesmo entendimento que PSD, CDS e o tutor de ambos – o imbecilóide de Boliqueime – têm!

Um partido que não fica nada  incomodado com o facto de manipular dados, mesmo que os mesmos constituam um tiro no pé, como se infere da afirmação de que a condição de desempregado que alguns dos cartazes assinalam tenham tido origem num governo de Sócrates, isto é, do próprio PS!

A armadilha está montada. A par da lei recentemente aprovada – precisamente no final da presente legislatura – a obrigar as televisões e rádios de sinal aberto, apenas e tão só a dar cobertura aos partidos representados no parlamento, impõe-se a proibição de falar nos temas que interessam ao povo português, dando a exclusividade de debate aos únicos partidos que são responsáveis pela situação em que se encontra o país.

O que interessa é transformar a campanha numa feira de fait divers, em que os partidos responsáveis pela crise, pela dívida e pela assinatura do memorando com a tróica germano imperialista, debitem a necessidade de que a dívida e a crise sejam pagas pelo povo e quem trabalha, diferindo, apenas e tão só, quanto à intensidade e profundidade do genocídio fiscal a aplicar.

O objectivo de PS, PSD e CDS – no que são secundados por Cavaco -, é o de escamotear que a dívida é uma decorrência da política de salvação do sistema bancário e financeiro imposta pelo imperialismo germânico, que exigiu a transformação da dívida privada dos bancos em dívida pública a pagar pelo povo e quem trabalha, invocando o argumento provocatório de que este esteve a viver acima das suas possibilidades e, agora, tem de pagar por esse pecado!

É o de escamotear de que todos estão de acordo que os 7,5 mil milhões de juros a pagar este ano, os 9 mil milhões para 2016, os 15 mil milhões para 2017 ou os 20 mil milhões em 2020, terão de ser pagos pelos suspeitos do costume , os trabalhadores e o povo português que não contraíram esta dívida, nem dela retiraram qualquer benefício, à custa de um autêntico genocídio fiscal, do aumento da carga horária de trabalho, da diminuição de salários, do corte nas pensões e nas reformas, bem como nos serviços de saúde, na educação ou nas prestações sociais.

É o de escamotear que a pertença ao euro e o admitir que esta dívida tem de ser paga pelo povo o remeterá para a condição de escravo e ao país para a condição de protectorado ou colónia do imperialismo germânico, sem qualquer capacidade para decidir sobre o seu futuro, com a total perda de soberania financeira e económica, fiscal, bancária ou cambial.

É o de escamotear que esta dívida, ilegal, ilegítima e odiosa, é propositadamente impagável – como é reconhecido pelo próprio Cavaco nos seus vómitos vertidos em memórias, a que deu o nome de Roteiros – para que essa colonização e escravidão se possam perpetuar.

Vade retro Satana! Que o povo e quem trabalha saberá livrar-se da armadilha que PS, PSD e CDS lhe estão a montar e, perante um quadro em que só existem 2 caminhos – o proposto pelos partidos germanófilos e os que são contra a colonização imposta pela imperial Alemanha, saberão escolher este último e votar em conformidade.


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A sua memória é boa?

Num debate entre dois representantes do bloco central – Correia de Campos, pelo PS e Ângelo Correia, pelo PSD – ocorrido num canal de notícias de um canal de televisão por cabo, na noite desta 5ª feira, o primeiro destes personagens, que foi ministro da saúde num governo liderado por Sócrates e levou a cabo o programa que fundamentou e deu início à destruição do Serviço Nacional de Saúde, explanou de forma meridianamente clara a estratégia do PS e de António Costa para o futuro próximo.

Perante o cenário de nenhum dos dois partidos do arco do poder conquistar, nas próximas eleições legislativas, a maioria, e face à possibilidade histórica – adiantada pelo segundo – de o PCP e o BE promoverem moções de censura contra o novo governo minoritário e o programa apresentado por este – fosse esse governo liderado pela coligação PSD/CDS, fosse por António Costa e o PS -, Correia de Campos defendeu que a memória da responsabilidade na queda do governo Sócrates, levaria aqueles dois partidos à esquerda do PS , na eventualidade de ser este partido a ganhar as eleições a, na pior das hipóteses, remeter-se à abstenção no caso mais que provável de uma moção de censura emergir desse cenário.

Ou seja, Correia de Campos que, ao longo de todo o debate, se identificou com quase todos os pressupostos políticos avançados por Ângelo Correia, no que concerne a necessidade de prosseguir – em nome da famigerada  prudência  - a política de genocídio fiscal (que pomposamente classificam de austeridade), admite como óbvio que nunca estabelecerá acordos – seja no âmbito parlamentar, seja no plano do elenco governamental, com partidos à sua esquerda -, ao mesmo tempo que não renega a possibilidade de acordos de incidência parlamentar com partidos da actual maioria parlamentar.

Mas, a pièce de resistence da estratégia do PS, que levou a um congelamento do anúncio do candidato presidencial a apoiar por este partido, é o facto de o PS presumir que a pressão da memória do derrube do governo de Sócrates - que, segundo Correia de Campos, abriu portas à eleição da coligação de extrema-direita Coelho Portas, tutelada por Cavaco -, sobre PCP e BE, se pode articular com a possibilidade de o candidato presidencial a escolher vir a ser a plataforma que una toda a esquerda parlamentar.

Isto é, um governo, sem maioria, mas com o beneplácito de um presidente que se prestaria  a congregar as boas vontades de toda essa esquerda,  para que esta aceitasse o pressuposto de que Portugal deverá continuar sujeito à condição de protectorado a que o obriga o euro, o tratado orçamental, o tratado da união bancária, acompanhada da perda de soberania fiscal e financeira, todas elas medidas impostas por um directório europeu completamente manipulado e ao serviço dos interesses do imperialismo germânico, agitando a cenoura da reestruturação ou da renegociação da dívida.

O que ficou claro do desenho desta estratégia, de forma cândida e meridiana explicitada durante o supracitado debate, é que ela demonstra não existir entre PS e PSD nenhum diferendo no que concerne a obediência, que ambos admitem, relativamente às políticas que o directório europeu e o imperialismo germânico que este serve ditam a um governo que seja protagonizado por qualquer um destes intervenientes. A única diferença, meramente formal, estará na dimensão do cacete, na extensão do golpe e na profundidade do genocídio fiscal a que qualquer um deles pretende sujeitar os trabalhadores e o povo português.

E, se ainda assim, subsistirem dúvidas, aqui vos deixo uma estatística que não desmente o que acima se afirma. Durante os 4 anos da legislatura que agora terminou, de um total de 310 propostas apresentadas à Assembleia da República pelo governo de Coelho e Portas, o PS votou a favor 139 delas e contra 92, abstendo-se em 79! Tendo em conta que uma das abstenções foi relativa à proposta do governo para a Lei do Orçamento de Estado de 2012,  se isto é oposição...estamos conversados!

Não satisfeitos com tanta e tão enérgica oposição, no que respeita projectos de lei apresentados pelas bancadas parlamentares de PSD e CDS - a estatística ainda é mais reveladora. De um total de 98 diplomas, 70 mereceram o voto favorável da bancada do PS!

O que ficou claro para o povo português é que este nunca poderá esperar do PS um acto de contrição relativamente às consequências dramáticas das medidas impostas pelo governo Sócrates e que foram a antecâmara do que o actual governo PSD/CDS impôs. Correia de Campos, que integrou aquele governo como ministro da saúde nem sequer esboçou qualquer auto-crítica ao mesmo, nem sequer à sua nefasta acção sobre o sector da saúde que tutelou.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Euro e dívida são indispensáveis à estratégia de dominação germânica sobre a Europa!

Quando pela primeira vez em 2012 utilizei a expressão  Não é a Alemanha que é indispensável à sobrevivência do euro... é o euro que é indispensável à estratégia de dominação do imperialismo germânico sobre a Europa, logo um coro de oportunistas, adeptos da teoria da reestruturação ou da renegociação da dívida soberana se indignaram com tamanha audácia!

Na cabecinha de ervilha destas iluminarias, a ideia de que as chamadas dívidas soberanas resultam de uma política que impôs a transferência das dívidas privadas do sistema bancário, decorrentes das aventuras que a especulação imobiliária e financeira e o chamado mercado do sub-prime originaram, para o domínio público, aparentemente não fez caminho.

Fingem não entender que, ao exigir a renegociação ou a reestruturação da dívida, aceitam negociar no campo daqueles que dizem combater, isto é, o directório europeu – completamente sequestrado pelo imperialismo germânico -, ao mesmo tempo que aceitam a provocatória premissa daqueles que, como o chefe da quadrilha Espírito Santo, Ricardo Salgado, defendiam que o povo português andou a viver acima das suas possibilidades!

Ora bem, o que esta gente de facto está a fazer, objectivamente, e independentemente das intenções que anunciam, é ajudar os serventuários do grande capital financeiro, bancário e industrial, sobretudo os grandes grupos germânicos, a branquear as massivas transferências que realizam, quer do rendimento do trabalho para o capital, quer dos juros que arrecadam à custa do negócio da dívida.

Como sempre o afirmámos, a Alemanha fez do euro uma ferramenta de dominação económica. E é por isso que a crise na Europa serve às mil maravilhas essa sua estratégia. Na razão inversa aos danos que provocam as medidas de austeridade que impõe, sobretudo aos países do sul da Europa, que constituem o elo mais fraco do sistema capitalista no continente, são colossais os ganhos que tem obtido à custa dela e das dívidas soberanas.

Basta ter em conta as taxas de juro divergentes entre os membros da chamada zona euro, sobretudo após os primeiros anos da entrada em vigor da moeda única. A análise dos números não deixa qualquer margem para dúvidas: se as taxas de juro pagas pela Alemanha se tivessem mantido estáveis depois de 2008, Berlim teria pago qualquer coisa como 93 mil milhões de euros de juros em 2015! Mas, como tal não aconteceu, este ano terá de desembolsar 48 mil milhões, ou seja, duas vezes menos do que o que estava previsto!

Basta fazer contas! A Alemanha, ao impôr elevadíssimas taxas de juro a países como a Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha ou Itália, assegura para si taxas que já chegaram a ser negativas, o que lhe proporcionou uma economia (diria roubo) de 193 mil milhões de euros, enquanto aos países sob resgate ou memorandos de intervenção de uma tróica por si dominada, é um exaurir de recursos, um genocídio fiscal e a perda de soberania que os espera, e a fome, a miséria e o desemprego para os respectivos povos.

Face à chantagem e humilhação a que sujeitaram o povo grego e à subsequente traição do Syriza na Grécia, bem como ao colapso das teorias oportunistas e aberrantes da reestruturação e/ou renegociação das dívidas soberanas, começam a ganhar corpo novas teses que assentam, genericamente, na condicionante de se a Alemanha saísse da zona euro, em vez de tentar expulsar outros países, quem mais beneficiaria com a saída dessa moeda única seriam, precisamente, aqueles que a potência germânica ameaça de expulsar.

Esperar que a Alemanha abandone unilateralmente a zona euro é a mesma coisa que acreditar que o leão que acabou de filar uma gazela e se prepara para a transformar no seu lauto repasto, se compadeça com a sorte da sua presa, apenas porque ela estrebuchou um pouco mais do que é habitual uma presa fazer, e a deixe partir para voltar a ser livre.

Segundo estes iluminados, a Alemanha deveria reintroduzir o seu amado marco (em nossa opinião nunca abandonado, pois o euro não passa do marco travestido), pois os problemas da dívida e da competitividade que países como Portugal, a Grécia, Espanha, Itália ou, apesar das diferenças, a Irlanda, actualmente enfrentam, voltariam a ser facilmente resolvidos, através de uma periódica desvalorização das moedas nacionais, especialmente quando comparamos comportamentos quando aqueles países detinham moeda própria e se confrontavam com o marco alemão em condições idênticas às actuais.

Mas, aparte a suspeita candura com que estas teses são produzidas e defendidas, nem a Alemanha abandonará a presa, por mais que ela estrebuche, nem com governos de traição que têm demonstrado ser bons alunos e fiéis serventuários da chancelerina Merkel e da sua estratégia para dominar a Europa será expectável uma alteração das condições políticas e económicas que estão a levar ao agravamento da miséria, fome e desemprego para os povos dos chamados países periféricos, ao mesmo tempo que se enchem os cofres dos grandes grupos bancários e financeiros da potência germânica.

Esta gente é a mesma que vem defendendo que os povos e os governos que se pautam pelo estado de direito, são honrados e pagam as suas dívidas! Escamoteando que as dívidas cujo pagamento estão a impor aos povos, não foram contraídas por eles, nem eles retiraram qualquer benefício delas. Quem retirou delas esses benefícios foram os grandes grupos bancários e financeiros que, em vez de capitalizarem os bancos que geriam, levaram a cabo uma autêntica política de casino, ao mesmo tempo que distribuíam de forma generosa, pelos seus accionistas, os fabulosos lucros que iam obtendo à custa de um sistema que permite que a banca seja a única a poder recorrer ao crédito do Banco Central Europeu (BCE), a taxas de juro de 1% ,e até inferiores, para depois vender esses créditos a taxas de 5%, e mais elevadas, aos estados...para que estes possam pagar as dívidas criadas pelo sistema bancário que lhes empresta, agora, dinheiro!

A recente situação da Grécia, um país e um povo humilhados e roubados por esta estratégia imperial germânica e pelo seu instrumento de dominação de eleição, o euro, demonstram à exaustão que face à estratégia da Alemanha e seus objectivos, de que as dívidas soberanas são para pagar, custe o que custar, isto é, à custa de uma catadupa de medidas terroristas e fascistas,  não constitui qualquer alternativa para a defesa dos interesses dos povos sujeitos a estas políticas, o que o directório socialista europeu, no qual se integram François Hollande e António Costa propõe, isto é, que as dívidas soberanas devem ser pagas mas...suavemente! Prolongue-se, no tempo e no modo, o pagamento de uma dívida ilegal, ilegítima e odiosa, mas assegure-se que ela é paga e que renda faraónicas mais-valias aos grandes grupos financeiros e bancários – sobretudo alemães e franceses.

É por isso que a nova fuhrer, a chancelerina Merkel, anda tão tranquila, confiada e confiante. Com inimigos deste jaez, quem precisa de amigos! Com uma oposição desta natureza o que poderá a dama imperial temer?! Só a organização, luta e firmeza dos povos!

O que os números agora divulgados demonstram é que não há alternativa, quer para Portugal, quer para outros países sujeitos a resgate pela tróica germano-imperialista, do que promover uma ampla unidade democrática e patriótica para correr com a tróica e seus agentes locais, sair do euro e da União Europeia, recuperar as moedas nacionais e implementar planos de restauro do tecido produtivo destruído, precisamente para satisfazer os interesses imperiais da Alemanha.






domingo, 19 de julho de 2015

O Euro é uma mordaça e é a Guerra!

Numa das mais antigas colectividades operárias de Lisboa, a Sociedade Musical 3 D’Agosto de 1885, em Marvila, decorreu no passado dia 9 de Julho do corrente ano uma Sessão Pública organizada pelo PCTP/MRPP, dedicada ao emergente tema  A Dívida, o euro e a perda da independência nacional – qual a alternativa?


Na parte final da sessão houve lugar a um debate muito rico. É a intervenção do meu camarada Arnaldo Matos, um dos fundadores do MRPP, que aqui transcrevo na íntegra, sugerindo vivamente a sua leitura eanálise, dada a importância e profundidade do seu conteúdo.

A edição e revisão do registo audio desta intervenção são da inteira responsabilidade do autor deste blogue.

Um aspecto que é importante abordar é que a União Europeia não é esse carneiro disfarçado que anda por aí a passear.

É que Lenine também escreveu num artigo posterior àqueles dois que foram aqui citados, que os Estados Unidos da Europa são a guerra. E o elemento de guerra que está já em progresso não é aqui citado por ninguém e parece que nós vivemos no melhor dos mundos.

Não se esqueçam que todo o assalto ao Norte de África foi feito pela União Europeia e pelo imperialismo americano. Portanto, o que Romel não conseguiu no Norte de África a senhora chancelerina Merkel já conseguiu, parcialmente.

A guerra já começou também na Ucrânia e ninguém sabe onde é que vai parar. Mas a guerra, para poder estender-se para fora da União Europeia, teve que começar por ela própria, primeiro do que o euro, que foi a guerra nos Balcãs. Uma necessidade de a Alemanha chegar ao Mediterrâneo.

Portanto, tudo isto é guerra! Desde que se deixou de ter a Comunidade Económica Europeia (CEE) e se passou a ter a União Europeia não tivemos um momento sem guerra na Europa! E parece que as pessoas não se preocupam com isto! Excepto quando ela chegar cá! Ou chegar à Grécia como vai acontecer provavelmente dentro de breve tempo.

Portanto, a história da guerra, nós temos de estar preparados para ela, isto é, para lutar contra ela e não fazer a guerra do imperialismo alemão. A Alemanha, e a União Europeia actual não é outra coisa senão o império alemão, já em três guerras que fez em 150 anos, ia destruindo a Europa toda: 1870, 1914/18, 1939/45 e agora. Esta ainda está a começar.

E parece que ninguém quer ver o óbvio! Toda a gente fala em euro, o euro é uma “boa moeda”, traz-se no bolso, tilinta, mas ninguém se preocupa com mais nada. Só quando estivermos todos envolvidos numa guerra até ao pescoço, então é que se vai ver quais foram os erros que se cometeram, e vai-se ver nessa altura onde é que se colocarão os que venderam o país até agora.

Mas o euro também tem uma história de luta de classes. O euro não é apenas uma questão monetária, é uma questão política e é o preço que nós recebemos por ter vendido a nossa classe operária! Nós vendemos os operários e deixámos de ter a força da revolução e eles mandaram para cá o euro para fazer o que quiserem e que os senhores já estão a ver o que já estão a fazer na Grécia.

Portanto, o problema aqui é que este euro tem uma dupla faceta. Uma das facetas é a que serve para acumular o capital fixo, isto é, serve para investir. E outra das facetas é que serve para roubar. Estas duas facetas nunca são vistas por ninguém, ou é só vista uma delas ou então nem sequer se fala em nenhuma delas.

Também queria chamar a atenção do exemplo da Grécia porque, como dizia um poeta latino, quando se fala da Grécia é de nós que estamos a falar. Para citar essa imagem poética, adaptada a outras circunstâncias, mas parafraseando o poeta, quando se fala da Grécia é de nós que estamos a falar.

Ora os senhores já viram o que aconteceu na Grécia neste momento. Vocês sabem como é que vive um grego hoje? Um grego hoje não tem dinheiro para comer, não tem dinheiro para tratar-se, não tem dinheiro para deslocar-se. A Grécia está neste momento num estado de pavorosa desregulamentação.

E é com essa base que eles vão tentar fazer vergar o Syriza, esse “partidomeco” que tanta gente gosta dele, sem ver as consequências da política desse partido. Mas, evidentemente, é assim que vive a Grécia. A Grécia está de joelhos. A Grécia foi arrombada pela União Europeia. Foi roubada e arrombada!

E os partidos que tem não estão à altura dos acontecimentos porque não se pode ganhar umas eleições sem prometer sair do euro. Os países pobres da União Europeia, que correspondem à orla do Mediterrâneo, estão contra o resto do império alemão. Estiveram toda a vida em que houve império alemão, em 200 anos! E vão continuar a estar agora.

Não há outra forma de dar conta disto. É preciso ler o Brodel, é preciso ler o que as pessoas que conhecem o que é história escrevem, para perceber o que é que se está a passar. Se não, ninguém sabe o que é que se está a passar!

Ora muito bem, se a Grécia pensava, há uma semana, que era melhor não sair do euro, eu gostaria de ver, se fosse feito na próxima 2ª feira(13 de Julho) o referendo, o que é que a Grécia ía dizer da saída do euro. Porque agora é que a Grécia está a perceber porque é que o euro é uma mordaça. Agora é que está a perceber!

Os senhores lembrem-se de uma coisa, nunca se esqueçam disto. Quando foi criado o Banco Central Europeu, ele era a união de todos os bancos europeus. E por isso, os bancos europeus deixaram de emitir moeda, mas o Banco Central emitiria a moeda necessária para os bancos europeus poderem trabalhar. E neste momento o que eles fazem é que eles não dão dinheiro, como nos termos do acordo que assinaram deviam dar, para a Grécia fazer o seu curso normal do comércio interno.

Portanto, eles liquidaram a Grécia. Eles querem que a Grécia seja um exemplo para todos nós. Eles querem que o povo português trema só de ouvir falar na Grécia. Se ajoelhe, só de ouvir falar na Grécia. E que em vez de criar um partido a sério, queira criar um Syriza. Isto é, uma cambada de bandalhos, que são à esquerda dos outros que deram cabo da Grécia, mas que não estão à altura dos acontecimentos.

É preciso romper com a Alemanha, é preciso romper com a Europa, é preciso romper com a União Europeia, é preciso romper com o euro e só um partido nestas condições é que pode ser, é que pode chegar algum dia a ter a estima do seu povo. E isto é uma coisa que não foi aqui bem clarificada.

Eu quis chamar problemas ao debate, não para criar medo, porque nós precisamos de não ter medo. O que eles estão é a querer meter-nos medo. Dizem, não façam nada porque senão vão acabar como o Syriza. Os senhores não façam nada porque senão vão acabar a levantar 60 euros por dia, se tiverem 60 euros para levantar. É isto que está aqui em causa. E é contra isto que a gente tem que lutar.

Sim, nós estamos do lado dos gregos, mas aquele governo dos gregos não serve para nós. Tem de ser outro. E também não serve para a Grécia. E isso a gente já vai ver. Lembrem-se de uma coisa, os gregos nunca cedem. Os gregos desde que estão numa situação que pensem que é o estreito das Termópilas, morrem todos mas não cedem. Lembrem-se disto!

Nós temos uma costela dessa resistência na nossa história. Nós também não cedemos. Mas temos uma outra dificuldade. É que cedimos(nota do blogue – cedemos) muito antes de levantar o cabelo. Temos também uma outra característica, a característica de que vamos aceitando as coisas e só quando já não é possível aguentar mais é que alguém levanta o cabelo. E nunca é as forças armadas, é sempre o povo. Sempre o povo.

Nós precisamos sair do euro. Isso é uma questão de liberdade do nosso país. Da autonomia e independência do nosso país. Se nós não sairmos do euro, vamos passar a vida a engraxar e a lamber as botas ao imperialismo alemão. Não há alternativa aqui. Não me interessa saber o que diz o PCP, não me interessa saber o que dizem os outros partidos, interessa-me saber que esses partidos estão, de uma forma geral, do lado do imperialismo alemão. Duma forma geral, alguns mais, outros menos.

Mas não é o caso do PS. Nem quer discutir. Eu assisti noutro dia a um debate na SEDES em que o PS e o PSD pretendiam proibir que se falasse sobre a dívida nesse debate. Não falem nisso, porque cada vez que se fala da dívida...aumentam os impostos, aumentam os juros! Aumenta tudo desde que a gente fale da dívida!

Ora bem, nós temos de falar na dívida. E temos de falar na dívida para dizer que não a pagamos, para dizer que queremos sair do euro, para dizer que queremos uma nova moeda e para dizer que há outro caminho. Ora, é preciso ver que eu também sou contra aqueles que acham que é preciso pedir ajuda à Alemanha para se sair do euro. Eu acho que se deve sair ao coice. Não é pedir ajuda, é sair ao coice.

Isto é, sair em ruptura. Essa ruptura, a classe operária portuguesa é fraca para fazê-la, mas os patriotas são suficientes para fazê-la. E essa ruptura permite-nos criar, com as condições que nós temos, permite-nos criar um país novo e um país com capacidade de aliar-se a uma quantidade de países no mundo.

Os senhores não se esqueçam duma coisa. Os senhores sabem quais são os grandes países asiáticos? São, a maior parte, países mais pequenos do que Portugal. Os grandes países, os tigres asiáticos, do desenvolvimento económico capitalista, são – tirando o caso da China e tirando o caso do Japão (que aliás está de rastos) -, são países ainda mais pequenos do que nós. E conseguiram fazer o seu desenvolvimento económico. Numa primeira fase, de acumulação, que também se pagou caro, também os operários tiveram de o pagar caro, mas conseguiram.

 E nós também temos ligações. Temos ligações aos países de expressão portuguesa, que têm também ligações connosco, e vamos passar a ter ligações num pé de igualdade. Vai precisar mais o Brasil de nós do que nós do Brasil. Vai precisar mais a África de nós do que nós da África. E não faltam muitos séculos para ver isso. Talvez 50 anos! Já não estamos cá a maior parte para ver isso, mas alguns ainda vão estar e vão-se lembrar desta sessão.


Registo audio desta importante intervenção:
https://www.youtube.com/watch?v=HFGKBiFrgRA














quarta-feira, 15 de julho de 2015

Syriza capitulou, mas povo grego não se rende!

Os incorrigíveis oportunistas de esquerda, românticos da capitulação e da traição dos interesses do povo, em nome de uma racionalização que passa por identificar questões concretas para apresentar soluções concretas para satisfazer as necessidades das pessoas, estão neste momento a tentar justificar por todos os meios a miserável traição a que Tsipras, o partido SYRIZA e a plataforma governamental que lidera registaram frente a um Eurogrupo que mais não é do que um directório dominado pelos interesses do imperialismo germânico.
O que a tragédia grega em curso demonstra, uma vez mais – e não é caso único na história da humanidade –, é que quando se tenta lutar contra o inimigo no seu território e aceitando as suas regras, o que se obtém é uma derrota frustrante e esmagadora para os interesses dos povos que se afirma estar a pretender defender.

Dormir com o inimigo nunca resulta em gravidez e parto saudáveis para o movimento operário e popular, mas apenas em desmancho. E a situação da Grécia e do povo grego são um paradigma desta constatação.

Uma situação que provocará, necessariamente, ondas de choque e trará consequências que, a não serem rapidamente combatidas pelos verdadeiros democratas e patriotas, serão devastadoras para os povos da Europa que neste momento se empenham na luta contra o pagamento de uma dívida que não contraíram – e que no entanto estão a ser forçados a pagar – e contra uma ditadura fascista e arrogante que prenuncia a guerra.

Nos tempos que correm, em que a revolução ensaia a recuperação das inúmeras traições de que tem sido alvo e das imensas derrotas que sofreu, e começava a ganhar um novo fôlego e a conseguir alterar as relações de força que opõem a classe operária, os camponeses, os trabalhadores e todas as camadas populares, à burguesia, ao seu sistema capitalista e ao imperialismo que é o seu estadio supremo, uma velha doença, mas com novas roupagens, emerge, pela mão de toda a contra-revolução, para paralisar o movimento revolucionário e, uma vez mais, tentar esmagá-lo. Essa doença, esse vírus, é o oportunismo, vista ele as roupagens do revisionismo, do esquerdismo ou da social-democracia.

Candidatos a assumir este papel não faltam à burguesia. Desde os que se prestam a proporcionar alguma credibilidade à oposição às medidas de austeridade que tem vindo a ser aplicadas pela tróica germano-imperialista sobre os trabalhadores e os povos da Europa, sobretudos nos países que considera os elos mais fracos da cadeia capitalista, arvorando a bandeira dos governos ou programas de salvação nacional até aos que, apesar de serem favoráveis à austeridade que permita, à custa de quem trabalha, pagar dívidas soberanas e controlar os deficits orçamentais, clamam que tais medidas terroristas sejam acompanhadas por programas de crescimento e emprego, como se fosse possível vislumbrar crescimento e emprego quando se aplicam medidas terroristas e fascistas que provocam nada mais do que recessão e desemprego.

Enquanto toda a esquerda parlamentar portuguesa – e, a bem da verdade, também alguma da extraparlamentar – cantava hosanas pela eleição de François Hollande para presidente da república em França, já este se preparava para ir prestar vassalagem à chancelerina Merkel, em Berlim, para fazer aquilo que se esperava: medidas de austeridade sim, sobre uma perna, mas sobre a outra, exigimos um plano de crescimento e de emprego. Ora, o que aconteceu é que a montanha pariu um rato, e o homem voltou coxo da cimeira com a sua chefe.

Pois, em Portugal, o imperador de Lisboa, António Costa, um oportunista dos sete costados que esmaga quem se lhe arrogue opor, quer replicar exactamente o mesmo que anunciava Hollande, ao incorporar no Programa Eleitoral do PS como objectivo central do seu governo – assim venha a ser eleito - , o emprego! Aliás, é bem significativa a postura do PS relativamente à crise grega. Hollande e Costa estão de acordo, no essencial, com a aplicação do plano da tróica, apenas divergindo quanto ao tempo e ao modo de aplicação das medidas terroristas e fascistas que a burguesia pretende aplicar, apenas e tão só, sobre a classe operária, os trabalhadores e o povo grego. E, claro está, o mesmo se aplica sobre o que pretendem para o povo português.

Para manter o sacrossanto lucro e a sacrossanta propriedade privada, base do poder da burguesia e do seu sistema capitalista, a burguesia atribui a alguns partidos que se reclamam da esquerda a tarefa de passar a ideia junto de quem trabalha e do povo de que é possível, sem alterar as relações de produção capitalistas e os fundamentos do estado burguês que assegura a sua manutenção, provocar seja que alteração qualitativa for que se considere satisfazer as necessidades de quem trabalha, do povo, e acabar de vez com a sociedade que permite a exploração do homem pelo homem.

Esta é a estratégia da burguesia sempre que prenuncia que grandes rupturas revolucionárias se perfilham no horizonte, como foi o caso de Portugal em 25 de Abril de 1974 e está a ser agora, de novo. Como é o caso da França e está, também, a ser o caso da Grécia. Desde os mais radicais aos mais tolerantes, desde os mais unitários aos mais sectários, o arsenal de oportunistas que se reclamam de esquerda, com que o grande capital e a burguesia contam é enorme. Para nós, marxistas-leninistas é fácil distingui-los e denunciá-los. A pedra de toque não tem sofrido grande variação desde os tempos de Marx e de Lenine. O que os distingue é a posição em relação ao que fazer no que concerne ao poder de estado e às relações de produção capitalistas: destruí-los ou fazer um refrescamento de esquerda da sua natureza, que é a da exploração do homem pelo homem?

O caso mais recente, ocorrido na Grécia, é paradigmático. Negociar no terreno do inimigo, aceitando as suas regras do jogo e clamando por uma renegociação da dívida ou pela sua reestruturação quando é o próprio inimigo a considerar, sem qualquer pudor, que a dívida é impagável, terá sempre como resultado aceitar que os povos sejam subjugados e os países sobre intervenção da tróica germano-imperialista sejam remetidos à condição de seu protectorado. Dívida perpétua gera juros perpétuos, mesmo que tal signifique a morte e a miséria para os povos!

Ainda esta semana a inefável Marisa Matias, eurodeputada pelo Bloco de Esquerda, tentava cândida e oportunisticamente explicar, sobre o acordo grego,  as razões pelas quais não corri a tirar o tapete ao Syriza! Um tratado! Para ela, tal como para toda a sorte de oportunistas que se clamam de esquerda, o problema todo assenta no mau carácter dos interlocutores e não é uma recorrência daquilo que nós, marxistas, classificamos como o motor da história: a Luta de Classes. Uma luta sem contemplações e da qual só um dos contendores sairá vencedor. Ou bem que a burguesia, ou bem que os operários, os camponeses, os trabalhadores, o povo. Essa história de que ambas podem sair ganhadoras nesta contenda é um verdadeiro conto para crianças.

A mesma Marisa Matias, aliás, que decidiu abster-se na votação no Parlamento Europeu que deu a vitória à união bancária que tramou o Syriza! Então, e agora, o que tem a dizer. Que se absteve por não ter a certeza de que tal união iria ser prejudicial aos interesses dos povos da Europa? 

No caso da Grécia, os diferentes programas de intervenção da tróica e os memorandos de entendimento em que assentaram, provocaram exactamente o contrário daquilo que Berlim e o directório europeu que manipula a seu belo prazer, com a ajuda dos seus serventuários, primeiro da Nova Democracia e do PASOK e agora do SYRIZA, anunciaram. Isto é, a dívida não cessa de aumentar, assim como o deficit. O Produto Interno Bruto sofreu uma queda de cerca de 27% (!!!) e as condições de vida do povo são cada vez mais dramáticas, aumentando meteoricamente o desemprego, a fome e a miséria.

Tal como em Portugal, toda a sorte de oportunistas, quer os que apoiam uma política de austeridade pura e dura e de empobrecimento do povo, como é o caso da coligação PSD/CDS, quer os que advogam um abrandamento da austeridade e uma política de emprego que, asseguram, promoverá o aumento do consumo interno, como é o caso do PS e de António Costa, quer ainda os que advogam – tal como o SYRIZA na Grécia – a reestruturação ou renegociação da dívida, tentam por todos os meios escamotear quem é que vai pagar uma dívida impagável e que impacto vai ter na qualidade de vida e dignidade do povo o pagamento de juros brutais – que este ano será de 7 mil milhões de euros, em 2016 de mais de 9 mil milhões para, em 2020, se situar no patamar de mais de 20 mil milhões de euros –, em sectores como a saúde, a educação, os transportes, a segurança social, etc, dos quais são desviados cada vez maiores recursos financeiros precisamente para fazer face a esses pagamentos.

O que a situação na Grécia nos ensina é que, não sendo ainda o socialismo, a nacionalização da banca e dos principais activos estratégicos permitiria a um Governo de Unidade Democrática e Patriótica implementar um plano económico que teria de passar, necessariamente, pela saída do euro, pela introdução do novo escudo e por investimentos criteriosos que assegurem, por um lado, a recuperação do tecido produtivo e, por outro, o aproveitamento adequado das vantagens de partida de Portugal e da sua posição geoestratégica única de porta de entrada e de saída do essencial das mercadorias de e para a Europa. Uma economia claramente ao serviço do povo e de quem trabalha, uma economia claramente garante da independência e soberania do país.

Razão terão sempre aqueles que face a uma dívida ilegítima, ilegal e odiosa, se recusam a pagar, renegociar ou reestruturar uma dívida que não contraíram, nem foi contraída para seu benefício e que não aceitam a chantagem que sobre eles está a ser exercida, consubstanciada na política de ou aceitam pagar ou saem do euro! Bem pelo contrário, há que organizar e mobilizar o povo e quem trabalha para a luta pela saída de Portugal do euro e a retoma de um novo escudo, pois está demonstrado que da sujeição de uma economia frágil a uma moeda forte como o euro – que não passa do marco travestido – só resultará mais dívida, mais défice, mais dependência, mais fome e miséria para os trabalhadores e para o povo português.

A capitulação e traição ocorrida na Grécia foi uma vitória temporária da contra-revolução e do imperialismo germânico que a lidera. Mas, tal com Lenine o afirmava, a burguesia, de vitória em vitória, caminha inexoravelmente para a sua derrota final e para o papel que a história lhe reserva, o do caixote do lixo, enquanto os operários, os camponeses, os trabalhadores, os povos em geral, quanto mais depressa aprenderem com as derrotas e delas se recompuserem – muitas delas infligidas por virtude de terem aceite a direcção de correntes oportunistas que se reclamam, mas não são, de esquerda – caminham, inexoravelmente, para a vitória final!

O que é certo é que as contradições antagónicas que se começam a revelar no seio das diferentes burguesias europeias, e que o caso grego despoletou, são prenunciadoras, por um lado, dos ventos de guerra que o projecto de unidade europeia ou do espaço vital sempre provocou e, por outro, de que, tal como no passado, os povos terão de se organizar para ousar transformar as guerras imperialistas em revoluções libertadoras.